sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Quando me encontraste, já não sabias o que procuravas?

Eu sou o que tu quiseres. Queres? Quando quiseres, não queres? Quando me encontraste, já não sabias o que procuravas? Só de longe o soubeste, e agora esqueceste? Não fomos feito para o amor, acrescentas agora? O que não quer dizer que não possamos amar-nos sempre outra vez, e pode ser mesmo a única coisa digna que nos resta? Não foi para isso que fomos feitos, então? Não fomos feitos para o que quer que seja, nascemos, crescemos, envelhecemos, morremos e é tudo, e é mais do que o suficiente? Interessa o quê, o que é que interessa, diz-me, quando o barco começa a naufragar? A atitude dos passageiros? Se começam a cantar ou a chorar, ou simplesmente continuam a fazer o que estavam a fazer? Saber que o barco vai naufragar e continuar? O que interessa é a atitude, insistes, mais não podemos? Não podemos fazer nada mas podemos mudar tudo, é isto que queres dizer? Começar por nós, terminar em nós? Mudar-me a mim e mudar o mundo, como é isso? Começar por mim e acabar em mim e mudar tudo à minha volta, como assim? Se já reparei? Que ao tornar-me melhor o mundo fica melhor? E ainda me pedes que não tenha medo e deixe de esperar o impossível? Que o barco pelo qual espero para me levar daqui para fora não vai chegar nunca? Que o barco por que espero é o barco em que vou? Quando partiu esse barco, gostava eu de saber? Há muito? Antes de mim? Mesmo sem mim? E vai naufragar, de qualquer modo vai naufragar? E que todos os que passaram aqui o souberam, e mesmo assim isso não impediu de fazer o que tinham a fazer? Que não sou só eu? Que uma corrente nos leva? Uma corrente de palavras? Uma corrente de amor? Passar o que por nós passa, que o que passa nem é meu, nem teu, nem nosso, nem as palavras, nem o amor? Passar isso o melhor que possa, e mais nada senão isso? Queres que me cale?

Pedro Paixão
in Muito, Meu Amor

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Tropeço de ternura por ti!


Dou comigo a fechar os olhos, a sentir, o arrepio, a saborear, como se estivesse a viver tudo de novo,  naquele momento, naquele preciso momento... E porquê? Porquê esta saudade do que poderia ter acontecido e não aconteceu? Ou aconteceu? Aconteceu sim, e tenho ânsia de coisas impossíveis, e sou insatisfeita, não estou satisfeita com a simples existência do mundo. E desejo o que poderia ter sido... Aiiiii estes sentimentos que, por vezes, doem, mas por vezes me fazem sorrir e, maioritariamente, me fazem confundir...Um caos de uma série de coisas nenhumas!
Acordo. Adormeço. Volto a acordar. E esta cabeça que não pára de pensar. O sol acorda lá fora e eu acordo também, mas já não estás a olhar para mim, e eu já não posso olhar para ti... “Pula da cama miúda, tens um mundo lá fora à tua espera”. Corro e corro, sinto o calor do sol ou a chuva a escorregar pela cara. E é bom! Sabe bem, mesmo quando depois do duche quente e rápido, me sento à frente do PC e volto à realidade... Respiro fundo, a música começa a tocar e respiro bem fundo!

“Como havia eu de imaginar que tu eras feito à medida do meu próprio corpo?

Os dias voltaram a ser preenchidos e alguma esperança vem ao meu encontro. O que me reservarão os próximos dias? E lá vens tu, fecho os olhos e sinto o arrepio de novo, o abraço forte...E respiro fundo...

  “E afinal de contas, não admirei sempre aqueles que batem com a porta e se vão embora?” E no fim, apenas peço para ter existido...


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A manhã perto nem que seja de rastos

"Exerce sobre mim todos os teus poderes,
os mais avassaladores e brutais,
os que deixam na carne a marca sem resgate
de uma morte prometida em cada gesto
e dá-me a perceber que
sempre que te toco é, afinal, o fogo
que estou a tocar, como se quisesse
bordar um monograma de lava
no lenço que cala o queixume dos lábios.
Deixa-me dos teus poderes
somente um rumor ou um aroma,
a inexprimível tentação que os faz
serem tão perenes e secretos,
tão sôfregos de entrega e infinito,
e depois derrota-me na arena
dos teus braços como tenazes de vento
sufocando nesta boca
o sopro que aprisiona o ar dentro do grito."





"Deve haver um lugar onde um braço
E outro braço sejam mais que dois braços
Um ardor de folhas mordidas pela chuva,
A manhã perto nem que seja de rastos."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Não penses, que é sacrilégio

"Ganhámos juntos o que perdemos separados:
a luz incomparável, esta luz quase louca
da primavera, esta gaivota
caída dos ombros da luz,
e a leve, saborosa tristeza do entardecer,
como uma carta por abrir,
uma palavra por dizer…

Ganhámos juntos o que vamos perdendo
separados:
a alegria – inocente
cidade,
coração aberto pela manhã,
pequeno barco subindo
nitidamente o rio,

fumegando, fumando
com o seu ar importante …
E a ternura – beijo sobrevoando
o teu rosto fiel,
fogo intensamente verde sobre a terra,
intensamente verde nos teus olhos,
pequeno «nariz ordinário»
que entre os meus dedos protesta
e se debate."



"Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio."



Fazes-me falta ... !